PAULO HONÓRIO E O PARADOXO DA COMUNICAÇÃO

 

Zenir Campos Reis - USP

 

 

            Tanto S. Bernardo quanto Angústia impõem à leitura a exigência de ler cada palavra à luz da totalidade do romance. De fato, essa exigência se propõe para todo grande texto literário, mas nestes dois romances, de estrutura circular, parece mais explícita.

            Apenas na segunda leitura fica patente que o início condensa as tensões que a narrativa ainda vai desdobrar no pormenor. Conquista, valorização e decadência da fazenda e do fazendeiro ocultam-se em todas as frases de S. Bernardo, como o inteiro itinerário de Luís da Silva, desde as primeiras linhas de Angústia.

            Hoje proponho a leitura de um problema que se expressa imediatamente no romance S. Bernardo: o problema da comunicação. Leiamos a primeira página dele:

 

Antes de iniciar este livro, imaginei construí-lo pela divisão do trabalho. Dirigi-me a alguns amigos, e quase todos consentiram de boa vontade em contribuir para o desenvolvimento das letras nacionais. Padre Silvestre ficaria com a parte moral e as citações latinas; João Nogueira aceitou a pontuação, a ortografia e a sintaxe; prometi ao Arquime­des a composição tipográfica; para a composição literária convidei Lúcio Gomes de Azevedo Gondim, redator e diretor do Cruzeiro. Eu traçaria o plano, introduziria na história rudimentos de agricultura e pecuária, faria as despe­sas e poria o meu nome na capa.

Estive uma semana bastante animado, em conferências com os principais colaboradores, e já via os volumes expostos, um milheiro vendido graças aos elogios que, agora com a morte do Costa Brito, eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem. Mas o otimismo levou água na fervura, compreendi que não nos entendíamos."

 

            O segundo parágrafo apresenta admiravelmente o processo da divisão de trabalho capitalista, em seus traços fundamentais: separação entre planejamento e execução, financiamento e apropriação privada.

            Mas existe mais: está ali figurada a conquista das consciências dos "colaboradores", a quem se apresenta a tarefa sob a face do "desenvolvimento das letras nacionais". Duas grandes motivações, ambas distantes da tarefa imediata e miúda: a motivação "desenvolvimentista" ("progressista", em outros termos), e a motivação "nacionalista". Diz ele que "consentiram de boa vontade". Obtém o "consenso" e a "boa vontade" associando à tarefa imediata a motivação subjetiva vinculada a grandes temas ideológicos. Essa proeza vinha sendo perpetrada pelos "capitães da indústria" dos países desenvolvidos, desde o século XIX. Além de "capitães da indústria", estavam-se tornando, pela manipulação da publicidade, "capitães das consciências", no dizer de um estudioso[1].

            Mais simples, na esfera da circulação, a idéia de "um milheiro vendido graças aos elogios que (...) eu meteria na esfomeada Gazeta, mediante lambujem".

            O resto do capítulo desdobra narrativamente a afirmação "compreendi que não nos entendíamos".

            Azevedo Gondim, como mais tarde Luís da Silva, em Angústia, pertence ao grupo aqui caracterizado como "periodista de boa índole e que escreve o que lhe mandam". Inteligência alugada, como João Nogueira, o advogado.

            Paulo Honório resume-lhe num admirável oxímoro a ambigüidade fundamental: "sentindo-se necessário, comandava com submissão". Dono da habilidade da escrita, finge, talvez até para si mesmo, uma autoridade que sabe residir no dono do capital.

 

A princípio tudo correu bem, não houve entre nós nenhuma divergência. A conversa era longa, mas cada um prestava atenção às próprias palavras, sem ligar importância ao que o outro dizia. Eu por mim, entusiasmado com o assunto, esquecia constantemente a natureza do Gondim e chegava a considerá-lo uma espécie de folha de papel destinada a receber as idéias confusas que me fervilhavam na cabeça.

O resultado foi um desastre. Quinze dias depois do nosso primeiro encontro, o redator do Cruzeiro apresentou-me dois capítulos datilografados, tão cheios de besteiras que me zanguei:

– Vá para o inferno, Gondim, você acanalhou o troço. Está pernóstico, está safado, está idiota. Há lá ninguém que fale dessa forma!"

 

            Para o núcleo da presente exposição, deixo de lado a discussão entre o registro oral e escrito. Interessa, antes, a assimetria entre os interlocutores. Paulo Honório habituou-se à voz de comando: suas palavras devem transformar-se em trabalho alheio. As palavras dos outros carecem de importância. No caso presente, acaba por "arqui­var" o escrito do jornalista, para eventual aproveitamento "depois de expurgados" (cap. II). As palavras podem também reduzir-se a mero apêndice de ação mais efetiva:

 

Quando arrastei Costa Brito para o relógio oficial, apliquei-lhe uns quatro ou cinco palavrões obscenos, Esses palavrões, desnecessários porque não aumentaram nem diminuíram o valor das chicotadas, sumiram-se, conforme notará quem reler a cena da agressão, cena que, expurgada dessas indecências, está descrita com bastante sobriedade". (XIII, 90)

 

            Consideremos outra situação, extraída do capítulo X:

 

 [...] distraí-me ouvindo Padilha e Casimiro Lopes conversarem a respeito de onças.

Não se entendem. Padilha, homem da mata e franzino fala muito e admira as ações violentas; Casimiro Lopes é coxo e tem um vocabulário mesquinho. Julga o mestre-escola uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinião arregala os olhos e dá um pequeno assobio. Gagueja. No sertão passava horas calado, e quan­do estava satisfeito, aboiava. Quanto a palavras, meia dúzia delas. Ultimamente, ouvindo pessoas da cidade, tinha decorado alguns termos, que empregava fora de propósito e deturpados. Naquele dia, por mais que forcejasse, só conseguia dizer que as onças são bichos brabos e arteiros.

– Pintada. Dentão grande, pezão grande, cada unha! Medonha!

Padilha exigia que o outro repetisse a descrição e ia interca­lando nela, por conta própria, caracteres novos. Casimiro Lopes divergia: mas, confiado na ciência de Padilha, capitulava - e ao cabo de minutos a onça estava um animal como nunca se viu." [cap. 10, p. 56-57]

 

            O confronto entre o letrado, que ocupa a função de mestre-escola, e o analfabeto decide-se também aqui em favor do mais poderoso. Mas a situação se complica porque existe uma terceira consciência, exterior aos diretamente envolvidos: a do patrão que se distrai ouvindo a conversa, e a relata.

            Surpreende essa seqüência: "(Casimiro Lopes) Julga o mestre-escola uma criatura superior, porque usa livros, mas para manifestar esta opinião arregala os olhos e dá um pequeno assobio." O raciocínio complexo, deduzir a superioridade do mestre escola do uso de livros, com a conjunção causal explícita, manifesta-se pelo arregalar dos olhos e do assobiar. Esta comunicação sem palavras entre Paulo Honório e Casimiro Lopes expressa-se mais algumas vezes:

 

Estirei o beiço dizendo em silêncio:

– Isto vai ruim, Casimiro.

Casimiro Lopes arregaçou as ventas numa careta desgostosa. [cap. 23, p. 126]

 

– Isto vai mal, Casimiro, dizia eu com os olhos.

Casimiro Lopes concordava, erguendo os ombros. [cap. 28, p. 154]

 

            No contexto do romance, apresenta-se a hipótese de Casimiro Lopes ser um desdobramento, duplo de Paulo Honório, um duplo degrada­do, espécie de cão: "Gosto dele. É corajoso, laça, rasteja, tem faro de cão e fidelidade de cão." (Cap. III, p. 16). "Assassino! Que sabia ela da minha vida? Nunca lhe fiz confidências. (...) Ainda em cima ingrata. Casimiro Lopes levava o filho dela para o alpendre e embalava-o, aboiando. Que trapalhada! que confusão! Ela não tinha chamado assassino a Casimiro Lopes, mas a mim. Naquele momento, porém, não me espantaria se me afirmassem que eu e Casimiro Lopes éramos uma pessoa só. " (Cap. 26, p. 170). Pode-se pensar também que o dono da narrativa é o dono da interpretação.

            Resta uma possibilidade que deve ser mais elaborada: estamos agora no momento da narração e não no da ação. Paulo Honório, que durante toda a vida ordenou sem réplica, sem ouvir ninguém, precisa como narrador reproduzir o que não tinha ouvido.

            A necessidade torna-se premente no caso de seu convívio com a mulher, Madalena. Os encontros e desencontros entre ambos constituem o próprio motivo da escrita do relato. Paulo Honório necessita agora de todas as palavras, não pode negligenciar nenhum gesto, nenhum tom de voz.

 

Tive, durante uma semana, o cuidado de procurar afinar a minha sintaxe pela dela, mas não consegui evitar numerosos solecismos. Mudei de rumo. Tolice. Madalena não se incomodava com essas coisas. Imaginei-a uma boneca da escola normal. Engano. [cap. 17, p. 96]

 

– Para que serve a gente discutir, explicar-se? Para que?

Para que, realmente? O que eu dizia era simples, direto, e procurava debalde em minha mulher concisão e clareza. Usar aquele vocabulário, vasto, cheio de ciladas, não me seria possível. E se ela tentava empregar a minha linguagem resumida, matuta, as expressões mais inofensivas e concretas eram para mim semelhantes às cobras: faziam voltas, picavam e tinham significação venenosa. [cap. 30, p. 160]

 

            O admirável capítulo XIX sintetiza a inteira abertura e a inteira disponibilidade do narrador para perceber sons, articulados ou não em palavras, gestos, silêncios e tentar atribuir-lhes sentido.

 

Procuro recordar o que dizíamos. Impossível. As minhas palavras eram apenas palavras, reprodução imperfeita de fatos exteriores, e as dela tinham alguma coisa que não consigo exprimir. Para senti-las melhor, eu apagava as luzes, deixava que a sombra nos envolvesse até ficarmos dois vultos indistintos na escuridão". (118)

 

A voz de Madalena continua a acariciar-me. Que diz ela? Pede-me naturalmente que mande algum dinheiro a mestre Caetano. Isto me irrita, mas a irritação é diferente das outras, é uma irritação antiga, que me deixa inteiramente calmo. Loucura estar uma pessoa ao mesmo tempo zangada e tranqüila. Mas estou assim. Irritado contra quem? Contra mestre Caetano. Não obstante ele ter morrido, acho bom que vá trabalhar. Mandrião!" (119).

 

            Este "recordar", devolver ao coração, tem em Santo Agostinho uma expressão precisa e bela:

 

Encerro também na memória os afetos da minha alma, não da maneira como os sente a própria alma, quando os experimenta, mas de outra muito diferente, segundo o exige a força da memória.

De fato, não estando agora alegre, recordo-me de ter estado contente. Sem tristeza, recordo a amargura passada. Repasso sem temor o medo que outrora senti, e, sem ambição, recordo a antiga cobiça. Algumas vezes, pelo contrário, evoco com alegria as tristezas passadas; e com amargura relembro as alegrias." [2]

 

            Graciliano Ramos foi mestre na exploração dessas múltiplas camadas que se condensam no presente, mas guardam marcas dos momentos geradores. O menino criado sem pais, quase pícaro, e o traba­lhador alugado deixam pegadas no empresário. Paulo Honório, quando escreve, já não é o empresário bem sucedido, mas, além da decadência econômica, é o viúvo que não chegou a conhecer a esposa.

            Agora se detém nas palavras que nunca ouviu completamente, palavras que passam a desfrutar de uma existência que nunca gozaram. Em contraste com as próprias palavras, que se esgotam no que chamaríamos a pura referencialidade, julga perceber palavras que vão além delas. Percebe que a voz de Madalena, mais do que "camadas de ar agitadas" ou suporte de significados, se alonga em dedos e em carícia. Embora de zangue com o sentido que a voz veicula, a rei­vindicação humanitá­ria a favor dos seus trabalhadores, ele a recebe porque não vem mais de fora: foi fecundada pela morte e tatuada no seu coração.

            Este e o capítulo final de S. Bernardo se encerram antecipando outro grande feito literário do Autor: a narrativa da a supressão paulatina dos senti­dos, vista, audição e tato, tateio das fronteiras do nada, prenuncia a narrativa da morte de Baleia, em Vidas secas.

            Exatamente neste lugar, limite entre o silêncio e o nada, é que se ouve o pio da coruja, precursor das vozes depositadas na Memória, outrora mãe das Musas.



 [1] Stuart EWEN. Consciences sous influence: publicité et genèse de la societé de consommation. Paris, Aubier, 1983.

 [2] Santo AGOSTINHO. "A lembrança dos afetos da alma", em Confissões, livro X.